Estamos no mês de setembro e, nesse período, o Setembro Amarelo ganha espaço nas conversas sobre saúde mental. A campanha nos chama a atenção para a importância da prevenção ao suicídio, mas também acredito que possa ser um convite à refletirmos ainda além, ampliar o nosso olhar sobre o sofrimento que existe muito antes de alguém chegar ao próprio limite.
Porque nem todo sofrimento interrompe a vida.
Há quem continue trabalhando, cuidando dos filhos, encontrando amigos, cumprindo compromissos, resolvendo problemas e até sorrindo. Há quem seja visto como alguém forte, responsável, que “dá conta de tudo”, enquanto, internamente, sustenta um sofrimento que nem consegue nomear.
Talvez essa seja uma das questões que mais merecem atenção quando falamos sobre saúde mental: aprendemos a perceber aquilo que transborda, que ultrapassa o limite, mas nem sempre enxergamos aquilo que alguém aprendeu a suportar e sentir em silêncio.
E, cá entre nós, aprendemos muito sobre suportar. Não é mesmo ?
Transformamos exaustão em rotina. Ansiedade em “meu jeito de ser”. Tristeza em ingratidão. Sobrecarga em responsabilidade e comprometimento. E seguimos, e apenas continuamos seguindo.
Às vezes, seguimos tanto que deixamos de nos perguntar o que está nos custando continuar funcionando daquela maneira.
Por isso, falar sobre prevenção ao suicídio também é falar sobre o que acontece antes do limite. Sobre os sinais que não necessariamente levam a paralisar uma vida, mas começam, pouco a pouco, a moldá-la.
Quando dormir já não é suficiente para descansar.
Quando aquilo que antes dava prazer perde espaço em nossos desejos.
Quando estar com outras pessoas exige um esforço cada vez maior.
Quando tudo parece pesado, embora, ao olhar-se de fora, aparentemente “está tudo bem”.
Quando dizer “eu consigo fazer” se torna mais fácil do que reconhecer “eu não estou bem”.
Cuidar da saúde mental não significa transformar todo desconforto em adoecimento. Significa, também, construir uma relação mais consciente e atenta com aquilo que sentimos e refletir sobre o que temos normalizado apenas porque conseguimos continuar suportando.
Nem sempre teremos palavras para explicar o que está acontecendo conosco ou o que estamos sentindo. E talvez não seja necessário tê-las para procurar ajuda. Muitas vezes, é justamente quando encontramos um espaço possível e seguro, de fala e de escuta, que aquilo que parecia confuso começa, aos poucos, a ganhar nome e fazer sentido.
Não precisamos esperar que o sofrimento nos impeça de viver para reconhecer que continuar também pode estar custando demais.
Talvez o Setembro Amarelo também possa nos deixar essa pergunta:
quanto do que você chama de “eu dou conta” já vem pedindo cuidado há algum tempo?
Niliane Brito
Psicóloga • CRP 03/12433
Especialista em Psicologia Clínica